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No Apartamento da São Gabriel

Quando eu era criança, o apartamento da São Gabriel era o lugar do sonho, onde eu podia vestir as camisolas longas da Dona Amélia, colocar Tchaikovsky na vitrola e rodopiar pelo carpete.

Foto tirado em vilarejo abandonado em Passagem de Mariana - MG

Onde os livros não findavam, e havia cômodos mil, minúcias e esconderijos.

Também era a janela onde a noite era iluminada e movimentada, minha predileção desde sempre.

Galinhas dos bombons de ouro.

Binóculos de slides.

Lança perfume, maracas, licores, cascos de tatu.

Esporas, ferraduras, Florisbela e Benedito.

E seu Fernando com a rádio cultura, sempre ligada, e seu carteado paciente.

O rádio azul que insistia em existir naquela cozinha tão pequena…

As caminhadas no parque, colheitas de jasmin e perfume.

Árvores mágicas.

Era o meu castelo.

Onde eu era a bailarina, onde existiam todas as danças.

O mais curioso é que a dança morreu quando a vitrola passou a me pertencer.

Nenhuma valsa de Strauss me encanta mais fora daquele apartamento… Que está lá, mas não existe mais.

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Vertiginosa

http://www.rogeryostgallery.com/fine-art/andrew-atroshenko/andrew-atroshenko-art.htm
Obra de Andrew Atroshenko

Resolvi sentar ali naquela manhã. Estava frio, como de se esperar, mas não gelado, como deveria. E ela sentou-se ali, comigo. Eu, emudecida pela sua presença, não tinha uma atitude sequer. Acabara que, com o passar de todos esses anos, aprendi a conviver com ela.

No passado, eu a convidei para entrar em minha vida, quando sua presença era doce e pressagiava novos horizontes. Sim, é verdade, um dia eu a quis do meu lado. Ela fazia cócegas, ao invés de triturar minh’alma, nessa época. Eu queria, novamente, que ela voltasse, recuasse… Mas agora, sentada do meu lado, como a que me encarar, ela me obrigava. Sim, quase que me arrastava pra sua tenaz visão de mundo.

Como eu escaparia? Isso, meu caro, que eu gostaria de saber. A cada hora tento encontrar uma nova maneira de lhe ignorar. Ela está ali, ao meu lado. Não posso sucumbir, ou ela devora-me a alma. Nubla meus pensamentos, acelera meu coração. Não, não é como um alucinógeno que traz instantes de conforto. Essa, querido, toma-me qualquer suspiro, e transforma no pior pensamento possível. Queria eu descobrir como ela me enganou! E também entender aqueles velhos budistas, que dizem que “é só não desejar”.

Agora, conte-me: você consegue viver sem desejar? Um chocolate, um aumento, algo novo. Ou amor, amizade, terminar a faculdade. Sim, ela está ai, do seu lado, esperando que você, por um segundo, planeje seu futuro. E queira fazê-lo acontecer. Essa moça, tão fina, pequena… Brota feito semente bem cuidada. E, durante a tarde, parece que ela se acalma, vai cuidar de outras pessoas. Deixa-me viver e eu tomo a esperança de que ela finalmente tenha ido. Meu erro primário, suponho. Esperança apenas é seu pseudônimo.

Sim, agora me lembro. Foi assim que se apresentou quando a conheci. É… e ao sentir a esperança de tê-la feito, finalmente, partir, vejo que a noite ela volta, cobrando tudo que não lhe prometi. E algumas coisas mais. Durante a madrugada, ela me atormenta: não me deixa dormir!

Ah, e ainda, meu caro, tem a pior parte: a da conquista. Sim, passamos horas, dias a fio juntas esperando a conquista. E quando, finalmente, consigo o que tanto almejei, ela se adianta, como sempre. Sorrateira, com aquele sorriso irônico, ela me pergunta: “- Ah, minha queria, e o que farás agora, depois disso? Isso te completa a alma? Não procuras mais nada?” E eis que eu me transformo, fantasmagórica, lívida… Todo o gosto que esperei, não existe! A conquista é efêmera, de nada vale ter esperado a festa! A festa, em si, nunca será completa!

Essa moça, tal de Expectativa, rouba tudo de mim: Desde o sofrimento da derrota à glória da vitória. Vampiresca, essa nossa relação. E tão atraente, ao mesmo tempo… É, como diria Kundera, a vertigem…

Tresloucada!

Andei pensando, enquanto minha cabeça rodava no travesseiro, que realmente ando exigindo muito. Exigindo que o compasso acompanhe a minha arritmia, e que a vida se faça da minha maneira.

Tudo errado, disse a primeira pontada de enxaqueca do domingo (que, por sinal, veio junto do primeiro raio de sol da manhã). Eu deveria aproveitar esse dia, de outra forma, ao invés de me debulhar em lágrimas por promessas não feitas e quereres desiguais.

Mas não havia jeito, as lágrimas se impunham aos meus olhos e, mesmo contra a minha vontade, eu chorava. E junto com o choro, veio aquele amargor: fígado, com certeza.

Não tinha jeito, tudo estava acabado. Afinal, eu sabia disso. Há tempos. Ah, consegui, cheguei ao âmago da questão. Há quanto tempo eu sabia e insistia em não saber? Quisera eu me punir?

foto de http://www.flickr.com/photos/laisdalamah/

Quisera eu tentar mudar o destino?

Sim! A labirintite já havia me gritado, logo no começo do domingo. Eu quis ser mais. Mais que o destino, mais que a vontade alheia. Quis forçar, e acabei forçada.

Café quente queimando garganta a baixo. Sim, fora essa a sensação. Engolir que eu poderia ter me esquivado, e permaneci agarrada à jarra escalpelante.

Queimaste de tonta, era isso, sim, que me diziam as lágrimas. Tanto sofrimento em vão, já sabias tu! E eu não quis me conformar. Ah, e o que aprendi com tudo isso, então, senão a me conformar? Eu queria mais do que podia ter, e esqueci-me de ter o que podia.

Tão batido, clichê.  Mas só faz sentido quando é contigo, acalmavam-me os soluços.

Entrega-te, deixe o Morfeu carregar-te. E eu deixo? Deixei. E ele levou-me, para onde, ainda não sei.

Sei que, naquele domingo, eu abandei (quase) tudo aquilo. E o resto? Ah, esse eu tento me livrar até hoje! Não, não posso carregar certos pesos e fantasmas, desatrelarei-os.

Antes de outro embarque, com certeza.