Stravinsky

Eu escuto as mesmas musicas desde os treze. E quando conheço qualquer música nova, ela vira febre até a exaustão, até cada nota estar injetada na minha veia, tatuada sob a minha pele. E cada uma delas tem uma lembrança, revividas a cada vez que eu as escuto.

Eu escuto as mesmas músicas desde que elas me foram apresentadas e nunca consigo abandona-las. Sei que serão uma companhia constante, e sempre que eu quiser voltar a elas, lá elas estarão. 
Gosto de pensar que faço escolhas assim, para sempre. De um minuto para o outro, eu decido o curso do resto da minha vida, entre acordes e dissonâncias.
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Capitu

Tinha-me lembrado a definição que José Dias dera deles, “olhos de cigana oblíqua e dissimulada.” Eu não sabia o que era obliqua, mas dissimulada sabia, e queria ver se podiam chamar assim. Capitu deixou-se fitar e examinar. Só me perguntava o que era, se nunca os vira, eu nada achei extraordinário; a cor e a doçura eram minhas conhecidas. A demora da contemplação creio que lhe deu outra ideia do meu intento; imaginou que era um pretexto para mirá-los mais de perto, com os meus olhos longos, constantes, enfiados neles, e a isto atribuo que entrassem a ficar crescidos, crescidos e sombrios, com tal expressão que…

Retórica dos namorados, dá-me uma comparação exata e poética para dizer o que foram aqueles olhos de Capitu. Não me acode imagem capaz de dizer, sem quebra da dignidade do estilo, o que eles foram e me fizeram. Olhos de ressaca? Vá, de ressaca. É o que me dá ideia daquela feição nova. Traziam não sei que fluido misterioso e enérgico, uma força que arrastava para dentro, como a vaga que se retira da praia, nos dias de ressaca. Para não ser arrastado, agarrei-me às outras partes vizinhas, às orelhas, aos braços, aos cabelos espalhados pelos ombros, mas tão depressa buscava as pupilas, a onda que saía delas vinha crescendo, cava e escura, ameaçando envolver-me, puxar-me e tragar-me. Quantos minutos gastamos naquele jogo? Só os relógios do céu terão marcado esse tempo infinito e breve. A eternidade tem as suas pêndulas; nem por não acabar nunca deixa de querer saber a duração das felicidades e dos suplícios. Há de dobrar o gozo aos bem-aventurados do céu conhecer a soma dos tormentos que já terão padecido no inferno os seus inimigos; assim também a quantidade das delícias que terão gozado no céu os seus desafetos aumentará as dores aos condenados do inferno. Este outro suplício escapou ao divino Dante; mas eu não estou aqui para emendar poetas. Estou para contar que, ao cabo de um tempo não marcado, agarrei-me definitivamente aos cabelos de Capitu, mas então com as mãos, e disse-lhe,–para dizer alguma cousa,–que era capaz de os pentear, se quisesse.

 

 

– in “Dom Casmurro

Caos

Eu não sei se consigo explicar-te. Talvez o que eu sinta seja profundo demais, antigo demais – incompreensível demais.

Sim, tu não pode me compreender. Talvez esse seja o ponto: tu terás que contentar-te em contemplar. Contemplar os sorrisos, as loucuras, as tristezas e os medos, sem, contudo, tentar compreende-los.

Achas que isso te é possível? Tu conseguirias conviver com alguém que não compreende?

Sim, eu espero que tu entendas e não ultrapasse esse ponto. Entender que nunca me entenderá já é o suficiente. E além do mais, isso seria a prova que eu preciso: tu me quereres sem motivo algum.

Sim, não teria eu motivos para desconfiar de ti. Eu concordo. Só não confio em ninguém, mon cher. A minha natureza caótica, como eu disse, não permite explicações: apenas pede aceitação.

Tu podes me aceitar?

Mia?

Mia é o nome artístico de Maria de Lourdes Villiers Farrow, que foi casada com Woody Allen e, também, com Frank Sinatra.

Mia Wallace é a personagem de Uma Thurman em Pulp Fiction. Uma de suas principais características (além de ser louca, surtada), é ser especialista em “dancinhas marcantes”.

Mia é o nome da primeira mulher a conseguir uma relação estável com Charlie Harper, na série Two and a half Men. Ela é professora de ballet.

Mia Thermopolis é a personagem principal da série de romances O Diário da Princesa, escrita por Meg Cabot. No cinema, ela é interpretada por Anne Hathaway

Por fim, Mia é a abreviação de Marília – pega-se a primeira consoante e o último ditongo.

Fresh Blood

Hoje a noite estava fresca. Nessa primavera as noites estão amenas, ao contrário dos dias. E que bela noite para morrer.

Sim, nessa noite eu matei. Creio que está uma noite tão bonita para se morrer… Confesso! Ainda tenho sangue em minhas mãos. Na verdade, por mais que eu me limpe esse sangue nunca deixará de correr nas minhas veias.

Hoje eu matei aquele que me matou muitas vezes. Aquele que transformou-se em aqueles, e que me fez ter medo do escuro. Aquele que me impede de seguir em frente e ser plenamente quem eu sou.

Desculpo-me, não gostaria de ser obrigada a matar. É algo que corrompe a alma…! Mas, eu não sabia… Morta eu já estava. Um fantasma habitando um corpo.

Mas, realmente, hoje está uma noite tão bonita para morrer. E como morri nessa noite, decidi matar também.

Salve o Amor!

Salve o amor.

Aquele de conchinha e barba na nuca, que pode durar pra sempre ou só até amanhã.
Aquele amor sem medo, sem freio, que ama e pronto.
Salve o amor que a gente dá e pega de volta outra hora, outro dia, com outra pessoa.
Aquele aconchego facinho que não posa, não se esforça, não finge.
Salve o amor-próprio, que resolve a vida de muitos, o amor das amigas, que aguenta, arrasta e levanta.
Salve o amor na pista, que roça, se esfrega se joga e vai embora.
Um amor só pra hoje, sem pacote pra presente, sem laço ou dedicatória.
Salve o primeiro amor, que rasgou, perfurou, corroeu… ensinou.
Salve o amor selvagem, o amor soltinho, o amor amarradinho.
Salve o amor da madrugada, sincero enquanto dure e infinito posto que é chama.
Salve o amor nu, despido de inverdades e traquitanas eletrônicas.
Salve o amor de dois a dez, um amor sem vergonha, sem legenda.
Salve o amor eterno, preenchido de muitos ardores.
Salve o amor gigante, mas sem palavras, o rotativo e o escrito, salve o amor rimado, cego, de quatro.
Salve o amor safado, sincero e sincopado, o amor turrão e o encaixado.

Medo de se Apaixonar

Você tem medo de se apaixonar. Medo de sofrer o que não está acostumada. Medo de se conhecer e esquecer outra vez. Medo de sacrificar a amizade. Medo de perder a vontade de trabalhar, de aguardar que alguma coisa mude de repente, de alterar o trajeto para apressar encontros.

Medo se o telefone toca, se o telefone não toca. Medo da curiosidade, de ouvir o nome dele em qualquer conversa. Medo de inventar desculpa para se ver livre do medo. Medo de se sentir observada em excesso, de descobrir que a nudez ainda é pouca perto de um olhar insistente. Não suportar ser olhada com esmero e devoção. Nem os anjos, nem Deus aguenta uma reza por mais de duas horas. Medo de ser engolida como se fosse líquido, de ser beijada como se fosse líquen, de ser tragada como se fosse leve.

Você tem medo de se apaixonar por si mesma, logo agora que tinha desistido de sua vida. Medo de enfrentar a infância, o seio que criou para aquecer as mãos quando criança, medo de ser a última a vir para a mesa, a última a voltar da rua, a última a chorar. Você tem medo de se apaixonar e não prever o que pode sumir, o que pode desaparecer. Medo de se roubar para dar a ele, de ser roubada e pedir de volta.

Medo de que ele seja um canalha, medo de que seja um poeta, medo de que seja amoroso, medo de que seja um pilantra, incerta do que realmente quer: talvez todos em um único homem, todos um pouco por dia. Medo do imprevisível que foi planejado. Medo de que ele morda os lábios e prove o seu sangue. Você tem medo de oferecer o lado mais fraco do corpo. O corpo mais lado da fraqueza. Medo de que ele seja o homem certo na hora errada, a hora certa para o homem errado.

Medo de se ultrapassar e se esperar por anos, até que você antes disso e você depois disso possam se coincidir novamente. Medo de largar o tédio, afinal você e o tédio enfim se entendiam. Medo de que ele inspire a violência da posse, a violência do egoísmo, que não queira repartir ele com mais ninguém, nem com seu passado. Medo de que não queira se repartir com mais ninguém, além dele.
Medo de que ele seja melhor do que suas respostas, pior do que as suas dúvidas.

Medo de que ele não seja vulgar para escorraçar mas deliciosamente rude para chamar, que ele se vire para não dormir, que ele se acorde ao escutar sua voz. Medo de ser sugada como se fosse pólen, soprada como se fosse brasa, recolhida como se fosse paz.

Medo de ser destruída, aniquilada, devastada e não reclamar da beleza das ruínas. Medo de ser antecipada e ficar sem ter o que dizer. Medo de não ser interessante o suficiente para prender sua atenção. Medo da independência dele, de sua algazarra, de sua facilidade em fazer amigas.

Medo de que ele não precise de você. Medo de ser uma brincadeira dele quando fala sério ou que banque o sério quando faz uma brincadeira. Medo do cheiro dos travesseiros. Medo do cheiro das roupas. Medo do cheiro nos cabelos. Medo de não respirar sem recuar.

Medo de que o medo de entrar no medo seja maior do que o medo de sair do medo. Medo de não ser convincente na cama, persuasiva no silêncio, carente no fôlego. Medo de que a alegria seja apreensão, de que o contentamento seja ansiedade. Medo de não soltar as pernas das pernas dele. Medo de soltar as pernas das pernas dele. Medo de convidá-lo a entrar, medo de deixá-lo ir.

Medo da vergonha que vem junto da sinceridade. Medo da perfeição que não interessa. Medo de machucar, ferir, agredir para não ser machucada, ferida, agredida. Medo de estragar a felicidade por não merecê-la. Medo de não mastigar a felicidade por respeito. Medo de passar pela felicidade sem reconhecê-la.

Medo do cansaço de parecer inteligente quando não há o que opinar. Medo de interromper o que recém iniciou, de começar o que terminou. Medo de faltar as aulas e mentir como foram. Medo do aniversário sem ele por perto, dos bares e das baladas sem ele por perto, do convívio sem alguém para se mostrar. Medo de enlouquecer sozinha. Não há nada mais triste do que enlouquecer sozinha.
Você tem medo de já estar apaixonada.

Não Vai dar

Odeio atenuantes, desculpas, restrições.

Odeio quem marca e desmarca.

Odeio quem maltrata a esperança do outro, quem não cuida da expectativa que mesmo criou.

Odeio quem afirma que não tem saída, que surgiu algo importante, que está de mãos amarradas.

Sempre há o que fazer. Sempre podemos escolher.

Odeio quem diz que vai e depois retira a palavra. Quem sempre inventa um senão de última hora. Quem não banca seu desejo. Quem finge intensidade para soar romântico.

 

Adiar não é esperança.

Um sim pela metade é não.

 

Respeito aquele que sofre de medo, jamais respeito aquele que aceita ser menor do que o medo.

Respeito aquele que sofre de dúvida, jamais respeito aquele que coleciona incertezas.

 

Na paixão, ou é ou não é. Não se negocia com a loucura.

Prêmio sem mérito

O amor é, por definição, um prêmio sem mérito.

Se uma mulher me diz: eu amo-te porque tu és inteligente, porque és uma pessoa decente, porque me dás presentes, porque não andas atrás de outras mulheres, porque sabes cozinhar, então eu fico desapontado.

É muito melhor ouvir: eu sou louca por ti embora nem sejas inteligente, nem uma pessoa decente, embora sejas um mentiroso, um egoísta e um canalha.

 

Milan Kundera