Vertiginosa

http://www.rogeryostgallery.com/fine-art/andrew-atroshenko/andrew-atroshenko-art.htm
Obra de Andrew Atroshenko

Resolvi sentar ali naquela manhã. Estava frio, como de se esperar, mas não gelado, como deveria. E ela sentou-se ali, comigo. Eu, emudecida pela sua presença, não tinha uma atitude sequer. Acabara que, com o passar de todos esses anos, aprendi a conviver com ela.

No passado, eu a convidei para entrar em minha vida, quando sua presença era doce e pressagiava novos horizontes. Sim, é verdade, um dia eu a quis do meu lado. Ela fazia cócegas, ao invés de triturar minh’alma, nessa época. Eu queria, novamente, que ela voltasse, recuasse… Mas agora, sentada do meu lado, como a que me encarar, ela me obrigava. Sim, quase que me arrastava pra sua tenaz visão de mundo.

Como eu escaparia? Isso, meu caro, que eu gostaria de saber. A cada hora tento encontrar uma nova maneira de lhe ignorar. Ela está ali, ao meu lado. Não posso sucumbir, ou ela devora-me a alma. Nubla meus pensamentos, acelera meu coração. Não, não é como um alucinógeno que traz instantes de conforto. Essa, querido, toma-me qualquer suspiro, e transforma no pior pensamento possível. Queria eu descobrir como ela me enganou! E também entender aqueles velhos budistas, que dizem que “é só não desejar”.

Agora, conte-me: você consegue viver sem desejar? Um chocolate, um aumento, algo novo. Ou amor, amizade, terminar a faculdade. Sim, ela está ai, do seu lado, esperando que você, por um segundo, planeje seu futuro. E queira fazê-lo acontecer. Essa moça, tão fina, pequena… Brota feito semente bem cuidada. E, durante a tarde, parece que ela se acalma, vai cuidar de outras pessoas. Deixa-me viver e eu tomo a esperança de que ela finalmente tenha ido. Meu erro primário, suponho. Esperança apenas é seu pseudônimo.

Sim, agora me lembro. Foi assim que se apresentou quando a conheci. É… e ao sentir a esperança de tê-la feito, finalmente, partir, vejo que a noite ela volta, cobrando tudo que não lhe prometi. E algumas coisas mais. Durante a madrugada, ela me atormenta: não me deixa dormir!

Ah, e ainda, meu caro, tem a pior parte: a da conquista. Sim, passamos horas, dias a fio juntas esperando a conquista. E quando, finalmente, consigo o que tanto almejei, ela se adianta, como sempre. Sorrateira, com aquele sorriso irônico, ela me pergunta: “- Ah, minha queria, e o que farás agora, depois disso? Isso te completa a alma? Não procuras mais nada?” E eis que eu me transformo, fantasmagórica, lívida… Todo o gosto que esperei, não existe! A conquista é efêmera, de nada vale ter esperado a festa! A festa, em si, nunca será completa!

Essa moça, tal de Expectativa, rouba tudo de mim: Desde o sofrimento da derrota à glória da vitória. Vampiresca, essa nossa relação. E tão atraente, ao mesmo tempo… É, como diria Kundera, a vertigem…

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s