Índole da meiguice perturbada

Qualquer coisa que se sinta*… Acho que minha história começa por aí.
Sempre quis sentir alguma coisa. Na verdade, acho que não sinto nada. E, então, decidi viver meio de extremos: ódio e amor. Afinal, é melhor morrer de amor do que viver em paz*.
Posso definir minha vida como o leve desespero de querer acabar com o nada, o vácuo que carrega essa existência mortal. Nessa busca, encontrei o caos, o nascimento de uma estrela… E falhei. Miseravelmente. E foi nesse momento que abdiquei de mim para buscar o amor, fora, no outro. Eu já não podia mais ser quem eu era, a dança morreu em mim – fato que até hoje reluto para aceitar – e passei a procurar nas imperfeições alheias o motivo da minha insatisfação. Veja, o poder de guiar era meu, sempre foi e ainda é. E eu guiava torpe, torta, julgando ser eu a guiada.
Também não consigo me fixar em nada, por muito tempo. A ausência de novidades me corrói. A rotina enfadonha me mata. De novo, a busca pelos extremos, juras de morte e brigas holiwodianas para suprir o vazio.
O vazio. O branco. A inexistência. A insignificância. A indiferença. Isso tudo sou eu?
A constante desistência e vontade de desistir facilmente são delegadas aos outros, como se eles me abandonassem, ou o quisessem. Mas eu que guio. Eu que levo a valsa. Eu que dei a deixa, e eles seguiram. E daqueles que ficaram, ahhh, esses atormentados foram.
E na minha incapacidade de manter algum interesse por tanta mesmisse, me desespero ao menor sinal de que me perdi, de novo, e estou guiando o avião para um pouso desesperado.
Não é hora, o cruzeiro ainda tem que seguir.
*Músicas citadas: “Qualquer coisa que se sinta” – Socorro – Arnaldo Antunes
*                              “É melhor morrer de amor do que viver em paz” – Olhar para trás – Jair Bloch
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A você, que me fez enxergar o melhor que eu poderia ser

(Livre adaptação do original A você, que me fez enxergar tudo o que eu poderia ter, escrito pela Fabíola Simões, do site A Soma de Todos os Afetos, que pode ser lido aqui)

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Depois dos acontecimentos meio mórbidos das últimas semanas, eu parei e pensei em várias coisas. Pensei em mim, em como levei a vida até hoje, e pensei em você, e em como você mudou
a minha vida. Sei que não deve ter sido fácil, eu consigo ser bem cabeça dura as vezes.
Você me refletiu melhor do que eu era, e através da forma como você me enxergava fez com que eu me visse como uma pessoa melhor, também.  Você me permitiu descobrir o que tinha dentro de mim, além daquilo que eu me negava a ver.
Antes de você, eu
simplesmente não sabia que alguém poderia mudar tanto meu conceito de mim mesma, e, mesmo diante de tantas dificuldades, ter alguém para me dar a mão e tranquilizar minhas fragilidades.
Hoje, eu consigo entender que, mesmo com suas atitudes mais radicais, tudo que você sempre quis foi me resgatar dessa ideia errada que eu tinha de mim mesma. Me ajudar a levantar da situação em que eu estava, há tanto tempo, sem me dar conta.
Você, que também me trouxe dúvidas, me fez entender o que é confiança, e me ajudou a amadurecer e aprender a tomar conta de mim mesma.
Eu só consigo pensar em te agradecer, por ter despertado em mim a melhor definição do que eu poderia ser, por ter permitido que eu trilhasse um caminho coerente comigo mesma, e por ter me ajudado a enxergar como a vida é boa, e tudo que ela pode me dar de bom.

 

Continuo

Aquele momento em que o sentido se esvai, e a escolha mais lógica, e simples, seria desistir.

Aquela hora que o passado colorido desbota, e o futuro parece não existir.

Aquela dor de deixar o que se construiu e abdicar do porvir.

Não, por agora não. Hoje, eu continuo. Hoje, eu acredito. Hoje, eu fico. Hoje, eu escolho.

Paradise and Hell

E quando você já não sabe mais como tentar?

E quando você escuta a mesma música sem parar?

E quando você não consegue parar de pensar?

E quando você não quer mais falar sobre isso?

E quando você não enxerga nenhum motivo?

E quando você já se quebrou tantas vezes que tem medo?

E quando você espera que dessa vez seus traumas sejam curados?

E quando você já não tem esperança nenhuma de que isso aconteça?

E quando você espera poder sacudir seus demônios para poder dançar?

E quando tudo que você quer é voltar a ser seu próprio paraíso?

E quando você quer novos começos?

Toque-me!

Toque baião, toque frevo,

toque rock, toque rumba,

mas não toque nesse assunto

toque tudo sempre assim

só não toque nesse assunto

e nunca toque no fim

 Toque paixão, toque samba,

toque funk, toque mambo

toque só porque eu mando

toque o mundo, toque fundo

eu quero que você se toque

em cada parte de mim.

 

 

 [Alice Ruiz]

 

 

Música de Itamar Assumpção – Gravação: Denise Assumpção

Do livro: Poesia pra tocar no rádio, Blocos, 1999, Rio de Janeiro – RJ

A você, que me lê

Obrigada por estar presente aqui.

Esse blog é atemporal, as postagens são feitas aleatoriamente, com textos novos, antigos, editados, reeditados, pensados, vomitados, achados do fundo do baú e essas coisas.

Diversas são as fases da minha vida que estão ali jogadas, tudo de uma só vez.

Impossível saber qual o momento em que escrevi cada coisa, ou o estilo que sigo.

Mais uma vez, obrigada por estar aqui.

Rodriguiana

E pela manhã eu sentia-me. De diversas formas, eu conseguia sentir cada nervo, conexão e neurônio existentes em mim. E também sentia todo o peso daquela verdade, insistente, a latejar nos meus passos.

O óbvio ululante é sempre o mais difícil de se escutar. Está ali, diante dos olhos, mas os olhos não ouvem. E os ouvidos insistem em cegar diante de qualquer estertor, agonizante, enviado pelas borboletas que invadiam meu estômago.

Hoje eu me sentia meio protagonista de qualquer livro desses de Nelson Rodrigues, meio pudica, com as faces rubras a menor menção de um elogio. Mas fervilhando. E sofredora, aflita, portadora de uma dor lancinante, pungente e indescritível, escondida atrás de um olhar de cigana, e um sorriso oblíquo.

No final das contas, eu era uma prófuga mistura de diversas musas, inexata até em seu autor. Começava no Dirceu, e perdia-me nas saias rodadas. Tudo bem, se até eu perdia o foco de mim mesma, como poderei culpar outrem por fazê-lo?

Subseqüente

Toda vez que termino de ler um livro é como se um pedaço de mim começasse a fazer falta, desaparecesse ou algo do tipo. Como se eu enterrasse uma parte da minha vida ou das minhas experiências, como se eu mudasse de casa ou emprego, deixasse de ver alguém ou não soubesse o que fazer com aquele sentimento ali deixado.

Fica um vazio, inexplicável, uma sensação que independe de quanto tempo eu tenha demorado para ler o livro. Apenas tenho que me acostumar com o fato de que não saberei a seqüência dos fatos, como a vida seguiu, ou se tudo realmente deu certo. É como seu eu esperasse, em algum momento, ficar para sempre junto daquelas personas, que parecem que ficam incutidas instantaneamente em mim, assim que tomo consciência de quem elas são, e me compadeço de seus sentimentos, ou tomo seus caminhos e destinos como se alguma parte de mim já tivesse vivido algo daquela mesma maneira, acompanho uma ‘novela’ fora de mim, como se passasse em mim.

Complicado? É, devo concordar que minha alma prolixa se supera de vez em quando, e tentar descrever algo que ainda se passa é muito difícil, principalmente para alguém que se expressa de uma maneira tão pouco compreensível. A verdade é que me torno aquilo que leio, ou encontro aquilo que leio em mim. Só consigo verdadeiramente ler, assistir ou ouvir o que me compadece. Talvez essa seja a explicação necessária. E não consigo fazer um padrão do que e agrada ou do que se parece comigo. Meu padrão é não ter padrão, é mudar mais que a lua (ou o clima de São Paulo), é ter todas as mais diversas sensações dentro de um mesmo minuto. É ter certeza dentro da incerteza.

E, realmente, livros me fazem submergir fundo na minha personalidade, e constatar algumas coisas que eu insisto em esconder de mim mesma. Ah, sim, eu me descubro lendo até romances ‘Sabrina’, embora altamente polutos para a alma. O que eu sinto nesse cinzento amanhecer, é um pesar de quase morte por eu ter terminado. Fins são sempre tão tristes, especialmente quando melancólicos.

Àquela música, com toda insensatez

Engraçado essa música voltar agora. Não na mesma medida, proporção ou sofrimento. Era em francês, aquele francês que fazia tanto mais sentido quando a conheci. Nada mais sutil do que, dessa vez, apenas um leve aperto avizinhar meu peito, ao invés daquele rompante de tristeza e lágrimas que tanto me dominaram anos atrás.  Talvez porque eu esteja acostumada a partir, ou porque esse ‘amor’ já era natimorto, vazio, e eu esperei que ele se fosse – sempre soube que mais dia, menos dia isso aconteceria.

Ao contrário de quando me apaixonei pelo francês, e pela música, mesmo em português, desconhecendo seus versos no doce idioma que me encanta. Eu queria tanto aquilo… Há, sim, era uma paixão pelo amor. Na verdade, creio que não me lembro quando me apaixonei por alguém. Como diz a Paula Toller, não amo a outra pessoa, amo o amor, e o que ele me representa. E vivo procurando corpos, aos quais poderei vestir com esse amor.

E brincalhão, sorrateiro, ele diz-me que aquelas medidas não lhe cabem, e eu insisto em querer vestir o santo, ora apertado demais, ora largo demais. E, realmente, me pergunto por quê. Por que eles se foram. Melhor: Por que não ficaram? Ou fui eu que quis ir, só não tive força?  Não, nunca houve a entrega completa. Embora já tenha eu perdido horas, ou jogado tudo fora, nunca meu sapato pisou no de alguém, ou meu sangue errou de veias. Meu sangue, isso eu garanto, pulsa forte no meu peito. A melancolia, ou solidão do dia, esmaecem e retornam, curiosamente, depois das seis.

O que importa, afinal? Não adianta que eu questione. Tudo já foi respondido, agora eu que me vire para entender as respostas. Interpretação do silêncio é a matéria mais difícil que conheço, e não me foi lecionada junto com a compreensão do sentimento alheio.

Não, não entendi daquela vez, quando me apaixonei pelo francês, e conheci a música. Como não entendi por tantas vezes, nesses anos. E dificilmente, irei, algum dia entender. Apenas sorri, quando a escutei. Senti aquilo tudo esvair lentamente… Como eu tinha vocação para o drama! A veia na qual meu sangue se perde é a artística. É nato. Indissolúvel esse meu vínculo com a intensidade… Talvez seja por isso que essa música faz sentido na minha vida: o exagero, que ao poeta tanto é necessário, é a única coisa capaz de me dar gosto ao dia.